Dicas no.2

Tati&Arte&Manha




Vamos assumir certas verdades, assim como diz o estilista e professor de história João Braga, quando afirma 

"Falar de perfeição é pretensioso, uma vez que esta é divina. 
Todavia, cada momento tem sua verdade,
 portanto esta verdade momentânea torna-se perfeita para relatar o contexto histórico de um período, 
servindo de documento identificador e referência de uma época."


E há quem concorde com ele. Uma delas é Regina Zilbermann, principalmente quando se fala em leituras na época das releituras. Essa manifestação ocorreu num recente evento sobre bibliotecas, na Assembléia Legislativa do RS, onde os convidados eram recebidos com sementes de girassol dentro de saquinhos rústicos para serem plantadas. Justo o girassol que representa tantas culturas e tantos usos. Foi a partir dos anos 1980-90 que a releitura foi assimilada como ideia e como referência. Rever não é copiar. Reler é se inspirar, ler novamente em busca do que ocasionalmente tenha sido esquecido; são novas atitudes num toque de saudosismo ao contemporâneo, unindo passado, presente e futuro, usando novos materiais, novas técnicas e novas soluções. E foi assim que a Regina entrou no evento lendo "Vidas Secas", da década de 1930, quando os protagonistas se auto-qualificavam de animais "animais sim, capazes de vencer dificuldades", e surge uma tal de Sinhá Vitória que entende o real e o interpreta para o marido, interpretando os acontecimentos. Fabiano, o marido, mediado pela esposa, tem que reconstituir o raciocínio dela para construir sua própria linguagem.

São duas leituras: a interpretação do mundo e a formação da linguagem - leitura da palavra, resultado do distanciamento com o mundo, segundo o educador e filósofo Paulo Freire, mesmo em "Vidas Secas" onde há exclusão da cultura/leitura por não serem alfabetizados, fazendo construções poéticas que sintetizam as ideias.
A (re)contação da história se convertia em prática pedagógica entre os protagonistas, dando outro posicionamento ao ouvinte (leitor), mesmo que contraditória, interpolando com a fantasia (crença), na qual o mediador se revela um leitor que responde de acordo com sua personalidade.

É um aumento das oportunidades de (re)leitura, pela oportunidade de leitura e seus efeitos emancipadores, tendo o leitor como sujeito em seu contexto.

E então surge a capacidade de ler.

Roberto Catelli Júnior dedicou-se a isto: a revitalizar o conceito de alfabetizado como aquele capaz de práticas sociais como sujeito (leitor).

Girassóis do Vincent Van Goght
Essa preocupação tem a ver com o domínio e não com o conceito binário do I.B.G.E.. Esse domínio está vinculado ao letramento (coerência e compreensão crítica) e numeramento (construir raciocínios, aplicar conceitos numéricos e matemáticos) e seu sentido nas práticas sociais das pessoas, seja no espaço de educação/ensino formal ou em outras atividades do cotiano dos indivíduos, como o comércio ou os serviços domésticos.

"Isto é difícil", reconhece a jornalista Cíntia Moscowitz, patrona da Feira do Livro de Porto Alegre.

Mas, há meios de dirimir dificuldades se há problemas. É o que afirmam as pesquisas do projeto ACERTA, por exemplo, que busca alcançar a universalização da competência leitora, entendendo que o cérebro humano nasce programado para aprender a falar. O cérebro não é programado para aprender a ler, processo que é estimulado pela instrução. Estima-se, inclusive, que a aquisição de excelência em um domínio requeira 10 anos, assumindo que mesmo sendo de longo prazo, trata-se de um desafio acessível, pois é uma prática deliberada que requer compromisso com a tarefa, apenas, portanto, desde que não hajam transtornos (vulnerabilidades genéticas) como a dislexia ou a discalculia que levam a uma evolução discrepante do esforço.

As sementes de girassol são extraídas  dos centros das flores secas e podem 

ser consumidas ou prensadas para a  extração do óleo de girassol.
Nada impede, entretanto, que estas leituras e releituras sejam oportunizadas, ou acessadas, em outras plataformas como a digital, que está criando comunidades em todo o mundo, onde é permitida a intervenção no texto, além do acesso, como nos contava Freia, sobre os "Piratas dos Livros", que começou como um escritório de assuntos fantasmagóricos trabalhado de forma analógica na Alemanha e atualmente dá a volta ao mundo tendo adeptos até em Hong Kong, avançando das escritura á leitura e dessa à encenação.

Acessibilidade, sim, com mediação inclusive, mas oficinas de produção de textos também, escritos até por apenados com direito a sessão de autógrafos, num processo de auto-ajuda e conhecimento para os demais do que significa acesso no plural.

Óleo/azeite de girassol
Um passaporte para o futuro, com assistências culturais que fazem contação de histórias num estado (RS) que em 2013-15 contava com 102 casas de detenção, das quais 97 possuem atualmente espaços de leitura (s) e atividades de relatos das leituras feitas, como resultado da Indústria da Solidariedade, iniciativa do empresariado gaúcho (F.I.E.R.G.S.) de apoio às casas prisionais, fazendo eco às ideias de João Braga de que uma releitura é possível.
Segundo ele:

" releitura (...) é percorrer um caminho já trilhado porém com novos passos, novas atitudes, novas respostas a novas necessidades."











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