espaço do artista 6 - Tocando em Frente



Um dos exemplos do centro-oeste brasileiro de hoje em dia: nas palavras do próprio artista é viver entre paixões, neste caso "entre as canções e a pecuária" (inspiração).

O trato da terra e a criação dos animais no centro-oeste foi resultado do esgotamento das minas que oportunizaram o comércio do Grão-Pará ao Mato Grosso, ocupando nas novas atividades ex-comerciantes, ex-monçoeiros e ex-sertanistas. Estes chegaram à 1960 fazendo eco à proposta descentralizadora de Brasília, também através das artes, muito centradas, preocupadas com a integração social, a desintegração do indivíduo e a alienação cultural, positivistas na observação/comparação/experimentação dos universos amazônicos associados num espírito uni-selva, onde o Pantanal era considerado o condensador das vertentes da Bacia do Prata e a fixação do homem pelo boi chega às suas vestes.

Fiéis parceiros dos jesuítas em suas andanças mato a dentro, deles foram sempre independentes em sua fidelidade às duas Coroas, atuando pela violência do fogo em correrias para a formação de missões e reduções, pois do lado português Sua Majestade Fidelíssima, no preceito absolutíssimo dos direitos reais "Todo serviço feito ao Rei se pode, e deve referir a Deus, a quem os Reis representam, e de dónde só lhe vem o poder, e a autoridade de que gozam." chegam aos nossos dias fazendo arte do sertão.





TRANS-vestimento e TRANS-versão

Em 1967, a editoração de "O sertão, o boi e a seca", organizada por Diaulas Riedel, vinha dar atualidade às narrativas de viagem, crônicas de impressões e páginas de ficção no norte/nordeste do país, regiões que contemplariam, na década seguinte as "Metas e Bases para a Ação do Governo" uma iniciativa organizada pela Presidência da República para ordenar o processo migratório pelo Brasil. No caso do Mato Grosso, além dos portugueses, espanhóis e brasileiros houve movimentos de imigração de paraguaios e japoneses revisando, assim, oficialmente, o regionalismo desde a perspectiva romântica e neoclássica do europeu que ressalta formas exóticas e costumes pouco civilizados.

Esse povoamento começa a gerar movimentos culturais que, segundo Paulo Sérgio Nolasco dos Santos, da UFMS, um dos organizadores de "Ensaios Farpados"(2004), produzem estereotipagem da realidade nos quais "o artista, representando os cidadãos da região, pudessem elaborar o trans/vestimento e a trans/versão da representação, então legitimada pelo simples desfilar dos pressupostos ícones de identidade sul-mato-grossense" (2004;51). É neste sentido que surge muito oportuna a definição de "colagem quase aleatória de fragmentos sonoros e visuais" (2004;81) na contribuição de Marcelo Marinho, da UCDB quando se refere ao cinema de Joel Pizzini como suporte pedagógico para a poética de Manoel de Barros, neste caso com o filme "Caramujo-Flor", um ambiente ambivalente entre o contato ancestral com a terra e a atração das grandes metrópoles, num esforço por desconstruir a linearidade espaço-temporal, porque ele está repassado à desordem caótica imposta por Pizzini, via montagem fragmentária cinematográfica que se quer mímesis da desordem do mundo.

São vertigens próprias do onírico na obra de arte, através do cinema, segundo Éder da Silveira (UFCSPA) "(...), a mais marcante expressão artística do século XX, (...) interessados em pensar os seus efeitos em nosso modo de fruir imagens e de torna-las objeto de reflexão." (2014;21). Em algum momento do filme de Pizzini, narra Marinho, "(...) estilhaços de som confundem-se com o canto de pássaros, e no filme, dão início a um fragmento musical." (2004;87), modificando o olhar sobre o objeto, num novo contexto de produção e significação; rompendo com a possibilidade de que o artista se identifique com o seu espaço geográfico, ingressando na "barroca figura serpentinada (concha), símbolo da necessidade de se analisar o cosmos a partir de todos os pontos de vista, de se analisar o verso e o reverso das coisas." (Marinho; 2004; 88).

Fontes:
"Cinema, Ética e Saúde. Direitos Humanos vol.2" (2014) (org.) A.C.Fonseca, C.Efrom e I.M. dos Santos.
"Ensaios Farpados. Arte e Cultura no Pantanal e no Cerrado" (2004) (org.) I. Russeff, M Marinho e P.S.N. dos Santos.
estampariasbrasileiras.blogspot.com.br/2014/08/inspiracao-japonesa.html
estampariasbrasileiras.blogspot.com.br/2014/12/a-tradicao-dos-designer-geometricos.html
folhadofazendeiro.com.br
"Metas e Bases para a Ação do Governo" (1972), IPEA.
"Origem da Capitania de Mato Grosso 1748-65" (2016) Israel de Faria Figueiredo.
"O sertão, o boi e a seca" (1967) (org.) Diaulas Riedel.
www2.uol.com.br/neymatogrosso/videos/filme02.html (filme Caramujo-flor; poesia Manoel de Barros)







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