Arte e Psicanálise

 

Tirso de Molina (1581-1648)
    Carlos V, chefe da Casa dos Habsburgo e Imperador do Sacro Império Romano Germânico, era o rei durante o Século de Ouro da Espanha (s.XVI-XVII). Seu sucessor, Felipe II, entretanto, mostrou-se débil diante da devassidão da corte, corrupção de fidalgos, esbulho de camponeses, perseguição de mouros e judeus. Mesmo assim, na literatura e nas artes, houve expressão em Cervantes, Baltasar Garcián, Calderón de la Barca, Lope de Vega, Tirso de Molina, pseudônimo do monge mercedário (Ordem Real, Celestial e Militar, de Nossa Senhora das Mercês, fundada em Barcelona, 1218, sob Regras de Santo Agostinho) Gabriel Téllez.

 

    Os dramaturgos espanhóis no século XVII - a despeito de Cervantes e seus colegas italianos e franceses - não se prendiam a regras clássicas: "os estrangeiros devem ser informados de que as peças espanholas não seguem as regras" (Lope de Vega) e de que as escreviam como lhes convinha e para serem aceitas pelos espanhóis. Lope de Vega era mestre e amigo de Tirso de Molina. ele fez um teatro "nacional", recorrendo ao dia-a-dia do espanhol, oferecendo o que pediam quanto aos costumes, lendas, heróis e lugares prediletos, rompendo com as regras  aristotélicas de lugar, ação e tempo, misturando a lírica com o drama e o trágico com o cômico. Tirso de Molina supera o mestre em ironia e malícia.

    Em Tirso, os aspectos psicológicos sobrepõem-se à ação, fundindo patrão e criado num mesmo personagem. Quebra um tabu ao introduzir mulheres - que se vestem e falam como tais - e mistura pessoas sérias com brincalhonas. 

    As hostilidades eclesiásticas voltam a se intensificar em 1620, levando os teóricos a valorizarem o alvo moral do teatro. Molina, como Lope da Vega, quer atender o seu público, lidando espontaneamente com o espaço e como ocupá-lo criando tipos, situações, contradições psicológicas e religiosas. 

Tirso, o cetro de Baco, alude à sensualidade em movimentos circulares. "Tirso é um bastão feito de um ramo de lúpulo, seco, duro e reto, em torno do qual se enroscam caules e flores em cálices e corolas, com fragrâncias e cores intensas.".

    Em "O Burlador de Sevilha", Tirso desenvolve a história num tempo distante o suficiente para evitar a reação da nobreza e a censura eclesiástica: o reinado de Alfonso VI (1312-1350). Seu personagem central, Don Juan, é representante da alta aristocracia, de família tradicional e poderosa, católico e membro da Calatrava, ordem cavalheiresca medieval. Ele é um sedutor que atua sem hesitação ou culpa, mata e engana, destemido, tem ódio ao casamento. O inusitado neste herói erótico é que não se trata de um herói homérico; o mal se encontra nele mesmo, fazendo do implacável sedutor uma figura sobre-humana, que não conhece arrependimento. A genialidade do autor está em que tantos atentados à moral burguesa e religiosa causam prazer e não repúdio ao público espanhol. As transgressões desfilam, sem amarras repressivas, sem viver a angústia decorrente do ato, como se soubesse das consequências, nasceu o mito Don Juan, metáfora da sexualidade e da morte.



"La mano de Dali, quitando un velocin de oro", 1977, Salvador Dali
   
   


     Na França, a história da psicanálise teve como pioneiro o psiquiatra Ângelo Hesnard, autor do primeiro livro francês de psicanálise. Hesnard, em 1912, escreveu uma carta a Freud "pedindo-lhe desculpas pelo desprezo da França pela psicanálise"; ele considerava Freud um sábio, mas entendia que o sentido das teorias freudianas "não pode convir à latinidade".

    Privilegiando o papel desempenhado pelos meios literários na implantação da psicanálise na França, os surrealistas - André Breton e seus discípulos - reivindicaram e tentaram incorporar em suas criações aspectos das descobertas freudianas; mesmo que de maneira ambígua, disfarçando uma resistência, justificavam suas ideias, surgidas na França como movimento literário e artístico após a Primeira Guerra Mundial.

    Pingaud abordou a questão no artigo "Os contrabandistas da escrita", em 1979. Freu, por sua vez, notou precipitações sobre sua obra de parte dos surrealistas e escreveu sobre isto a Stefan Zweig, em 1979, mas suas preocupações se dissiparam após um encontro com Salvador Dali, que foi visitá-lo em companhia de Zweig, escritor austríaco que se refugiou no Brasil para escapar às perseguições nazistas.

    A psicanálise for acolhida na França após a Segunda Guerra Mundial, sob a influência de Jacques Lacan, que frequentava os meios surrealistas: "A poesia moderna e a escola surrealista conduziram-me a das aqui um grande passo, ao demonstrar que a conjunção de dois significantes seria suficiente para constituir uma metáfora, se a condição do disparate das imagens significativas não fosse exigida para a produção da faísca poética, isto é , para que a criação metafórica existisse." ("Escritos", 1966, J. Lacan).




Nelson Rodrigues
    Nelson Rodrigues e Freud meteram-se na latrina das perversões.

    A perversão é uma problemática moral onde o funcionamento é regido pelo imediatismo do princípio do prazer, fazendo com que opere um Supereu - consciência moral, formação de ideias e auto-observação - corrompido.

    Os elementos conceituais do Supereu se transformam ao longo da história, o que é fundamental para a articulação no grupo societário e para a cultura.

    A variedade de gêneros textuais de Nelson rodrigues tem temas recorrentes - a traição, o incesto, o tabu subvertido - que convergem a um núcleo duro: o dilema moral humano; a culpa (neurótica) e a sua pedagogia através do uso de temas atrozes e hediondos em sua composição estética. Ele auto definia sua obra como "propositalmente moral": "O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros." (1997). Críticas de todos os lados: difamar a família, o moral e os bons costumes pela direita; alienado e chafurdador nas taras bestiais de uma burguesia decadente, pela esquerda, longe de fazer o elogio do canalha, ele problematiza o amor. No maior dramaturgo brasileiro, Nelson, o gênio artístico, sua história de vida e contexto histórico no qual estava inserido foram indissociáveis.


"Se atirarmos um cristal ao chão, ele se parte, mas não em pedaços ao acaso. Ele se desfaz, segundo linhas de clivagem, em fragmentos cujos limites, embora invisíveis, estavam predeterminados pela estrutura do cristal. Os doentes mentais são estruturas divididas e partidas do mesmo tipo." (Freud, 1933, "A dissecação da personalidade psíquica")
    


Fonte: TRIEB - nova série - vol.VI, n.1, jun/2007.

Ver também, textos:

"Afinidades eletivas: psicanálise e literatura" , Ruth Rissn (APERJ Rio04).

"A geleia, o mercúrio e a placenta: um convite de Clarice Lispector à psicanálise" , Rita de Cássia Barbosa (USP) e José Moura Gonçalves Filho (USP).

"Da verdade e das aparências", Ana Lia Vianna Ambrósio (APERJ Rio 04).

"Do Burlador de Sevilha e O Convidado de Pedra a Don Juan", José Durval Cavalcanti de Albuquerque (Sociedade de psicanálise Iracy Doyle).

"Propósitos sobre as relações entre a psicanálise e a literatura na França", Eliezer de Hollanda Cordeiro (Ordem dos Médicos da França, Depto. de Loiret)

"O Palhares de Nelson rodrigues e o supereu freudiano", Francisco martins (Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília) e Marcelo Duarte Porto (Universidade Estadual de Goiás).

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